Sobre pedras e tartarugas.

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Diariamente no meu trabalho escuto queixas de pessoas ao respeito de seus relacionamentos nas mais diversas esferas. Alguns podem até dizer que na minha profissão isto é natural, e é. Ocorre que esta experiência é comum na vida da maioria de nós, no trabalho, nas relações sociais e familiares. Claro que você já ouviu queixas de pessoas sobre as relações em que se encontram.

Ao desempenhar minhas funções, a preocupação é com o indivíduo que está assentado diante de mim, uma vez que quem me procura sempre traz alguma angústia, algum sofrimento e busca alívio, soluções. Observo que a grande expectativa das pessoas é a de que os envolvidos em suas relações façam mudanças, e então nos deparamos com duas armadilhas: esmiuçar, especular, dissecar a dita situação problema, de forma incansável, repetitiva, sofrida, além de imaginar que seja possível mudar o outro lado da relação apenas com pensamentos, vontades, desejos e argumentos. O resultado disto costuma ser um aumento significativo da angústia da pessoa com quem estamos conversando, uma vez que mudanças são processos internos e ocorrem somente se o indivíduo quiser.

Essencial distinguir aconselhamento de orientação. No primeiro usa-se a própria experiência de vida com sugestões de comportamentos e atitudes ao ouvinte, o que pode ser desastroso visto que cada um de nós é único, com histórias e percepções individuais das mais diversas realidades. No segundo, orientação, levamos em conta o modelo de mundo de quem estamos ouvindo. Verifico que quando nos atemos apenas aos problemas nos colocamos num beco sem saída, um circulo vicioso de pensamentos e estados emocionais altamente limitantes. Estabelecer o que deseja o ouvinte, seus objetivos e resultados almejados é o mais importante desafio de quem se propõe a ajudar pessoas.

Costumo desafiar a pessoa com quem estou conversando que estabeleça quem ela quer ser, a partir de hoje, e é frequente ouvir que o desejo é ser feliz. Felicidade é um atributo incondicional, depende apenas e exclusivamente de cada um de nós. Há de se distinguir estados felizes e alegres, relativos a uma série de experiências vividas da felicidade plena, existencial, e para isto é importante que saibamos o que queremos da vida, em seu sentido mais amplo. Condicionar felicidade a bens, relações, filhos, carreira é um equívoco comum, que pode nos decepcionar e algumas vezes frustrar. Ser feliz é bem diferente de estar feliz.

Esperar que o outro mude para que você seja feliz é um risco muito alto, que pode ser caro com grande chance de insatisfação. Da mesma forma, imaginar que com discursos você pode mudar alguém é profundamente ingênuo, o máximo que se consegue é uma negociação mais razoável. O que pode dar resultado é uma nova atitude sua, diante de sua vida e então, quem sabe, mudar alguma coisa nos comportamentos de quem você convive. Nos meus atendimentos assento-me à frente do meu interlocutor, sem nenhum obstáculo entre nós, olhos nos olhos, ligeiramente à esquerda deste que naturalmente me olha, e num dado momento desloco minha cadeira mais à direita dele, que então muda a direção do olhar. Parece-me ser esta a melhor alternativa na direção de melhorar nossos relacionamentos, mudar nossos comportamentos com a expectativa de que o outro mude os dele. Pergunte-se mais frequentemente o que você pode fazer pelo outro para que o outro queira fazer por você.

Metaforicamente, a partir de hoje, todas as vezes que for atravessar um rio, tenha a certeza que está pisando em pedras, escolha sua, sob seu controle. Cuidado porque tartarugas podem se confundir com pedras e ao se apoiar nelas, que tem vontade própria, estas podem deslocar-se e te jogar dentro d’água. Esteja preparado para isto, mude seus comportamentos, quem sabe o outro mude os dele, ou não!

Em tempo: se cair na água divirta-se, vale a pena!

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