Sobre pedras e tartarugas.

Atualizado em 17/04/2017
Por Carlos Lima

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Diariamente no meu trabalho escuto queixas de pessoas ao respeito de seus relacionamentos nas mais diversas esferas. Alguns podem até dizer que na minha profissão isto é natural, e é. Ocorre que esta experiência é comum na vida da maioria de nós, no trabalho, nas relações sociais e familiares. Claro que você já ouviu queixas de pessoas sobre as relações em que se encontram.

Ao desempenhar minhas funções, a preocupação é com o indivíduo que está assentado diante de mim, uma vez que quem me procura sempre traz alguma angústia, algum sofrimento e busca alívio, soluções. Observo que a grande expectativa das pessoas é a de que os envolvidos em suas relações façam mudanças, e então nos deparamos com duas armadilhas: esmiuçar, especular, dissecar a dita situação problema, de forma incansável, repetitiva, sofrida, além de imaginar que seja possível mudar o outro lado da relação apenas com pensamentos, vontades, desejos e argumentos. O resultado disto costuma ser um aumento significativo da angústia da pessoa com quem estamos conversando, uma vez que mudanças são processos internos e ocorrem somente se o indivíduo quiser.

Essencial distinguir aconselhamento de orientação. No primeiro usa-se a própria experiência de vida com sugestões de comportamentos e atitudes ao ouvinte, o que pode ser desastroso visto que cada um de nós é único, com histórias e percepções individuais das mais diversas realidades. No segundo, orientação, levamos em conta o modelo de mundo de quem estamos ouvindo. Verifico que quando nos atemos apenas aos problemas nos colocamos num beco sem saída, um circulo vicioso de pensamentos e estados emocionais altamente limitantes. Estabelecer o que deseja o ouvinte, seus objetivos e resultados almejados é o mais importante desafio de quem se propõe a ajudar pessoas.

Costumo desafiar a pessoa com quem estou conversando que estabeleça quem ela quer ser, a partir de hoje, e é frequente ouvir que o desejo é ser feliz. Felicidade é um atributo incondicional, depende apenas e exclusivamente de cada um de nós. Há de se distinguir estados felizes e alegres, relativos a uma série de experiências vividas da felicidade plena, existencial, e para isto é importante que saibamos o que queremos da vida, em seu sentido mais amplo. Condicionar felicidade a bens, relações, filhos, carreira é um equívoco comum, que pode nos decepcionar e algumas vezes frustrar. Ser feliz é bem diferente de estar feliz.

Esperar que o outro mude para que você seja feliz é um risco muito alto, que pode ser caro com grande chance de insatisfação. Da mesma forma, imaginar que com discursos você pode mudar alguém é profundamente ingênuo, o máximo que se consegue é uma negociação mais razoável. O que pode dar resultado é uma nova atitude sua, diante de sua vida e então, quem sabe, mudar alguma coisa nos comportamentos de quem você convive. Nos meus atendimentos assento-me à frente do meu interlocutor, sem nenhum obstáculo entre nós, olhos nos olhos, ligeiramente à esquerda deste que naturalmente me olha, e num dado momento desloco minha cadeira mais à direita dele, que então muda a direção do olhar. Parece-me ser esta a melhor alternativa na direção de melhorar nossos relacionamentos, mudar nossos comportamentos com a expectativa de que o outro mude os dele. Pergunte-se mais frequentemente o que você pode fazer pelo outro para que o outro queira fazer por você.

Metaforicamente, a partir de hoje, todas as vezes que for atravessar um rio, tenha a certeza que está pisando em pedras, escolha sua, sob seu controle. Cuidado porque tartarugas podem se confundir com pedras e ao se apoiar nelas, que tem vontade própria, estas podem deslocar-se e te jogar dentro d’água. Esteja preparado para isto, mude seus comportamentos, quem sabe o outro mude os dele, ou não!

Em tempo: se cair na água divirta-se, vale a pena!

Carlos Lima, aqui no Blog.
Médico pela UFMG (1984), especialista em Psicoterapias Breves, Hipnose Ericksoniana, mais de 7400 pessoas atendidas em consultório, em pelo menos 50 mil horas de trabalho. Trainer in NLP (Neurolinguistic Programming), tendo ministrado mais de 20.000 entre palestras e treinamentos comportamentais em mais de 250 empresas de diversos portes e áreas de atuação.

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