Universo Corporativo e suas gigantescas incongruências.

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Grandes cabeças, gente com espírito inovador, ambiente onde se valoriza criatividade e competências, pessoas com diversas formações sofisticadas, graduações brilhantes, pós-graduações esmeradas em escolas de renome, estágios em empresas de referência, cursos no exterior, enfim um universo grandioso de pessoas iluminadas, operando na mais absoluta escuridão. Quanto desperdício de talentos, tempo e objetividade. Absolutamente incongruente.
Há alguns anos a única forma para atravessar os oceanos era através de navios, os transportes terrestres eram feitos em veículos de tração animal, a comunicação entre pessoas distantes se fazia por cartas, o artesanato era a única forma de produção. Tudo isto durou alguns séculos, até que alguém inventasse o avião, os trens, automóveis, telefone, internet, maquinários e indústrias. Pessoas geniais fizeram isto, inovadoras, visionárias, criativas. Quanta evolução.
Infelizmente em todo este tempo as relações nos ambientes corporativos pouco ou nada evoluiu, quanta incongruência! A palavra trabalho vem do latim “tripalium”, instrumento feito de três(tri) madeiras (palum) originalmente usado para conter cavalos que resistiam a serem ferrados, e mais adiante usada em humanos como ferramenta de tortura. Ainda hoje tem gente contaminada por este conceito, trabalhar é torturante, doloroso, sofrido, a evolução e crescimento na carreira dependem de grandes estresses, sacrifícios, comprometimento da qualidade de vida. Uns tantos direitos são oferecidos, tíquete de tudo quanto há, alimentação, transporte, “saúde”, etc…, e em troca é exigido bem mais do que seria razoável para o organismo.
Se antigamente os torturados padeciam e até morriam em decorrência das torturas físicas, hoje sofrem por uma gama de doenças de origem psíquica, emocional, social. Enfarte de cá, depressão dacolá, gastrite aos montes, hipertensão, alergias não sei de que, ansiedades múltiplas, psicoses diversas, irritação contínua, insônias dos mais variados tipos, desânimos, desapegos, sentimento de menos valia, inflamações em todos os segmentos do corpo e um montão de etcéteras.
Há mais de trinta anos presto assistência comportamental em empresas de diversos portes e áreas de atuação e me impressiono como tudo continua do mesmo jeito, como encontro resistência dos caras em tratarem pessoas como pessoas, desde a base das empresas até seus altos escalões. Escuto umas mesmices muito mais preconceituosas do que conceituais. A metáfora da guerra, luta, disputa, confronto, conquista de espaço. A inércia criativa de que é assim que funciona, sempre foi. O mercado exige isto, se não fizermos assim seremos devorados, engolidos, massacrados.
Uma inútil política de cobrança, doa em quem doer, as desrespeitosas comparações entre profissionais, as humilhantes e falsas premiações, como cachorros correndo atrás de coelhos mecânicos. Raríssimas empresas privilegiam os acertos, a conta é feita ao contrário, percentuais de erros, índices de retrabalho, não conformidade. Os caras pedem para que se vista a camisa, alguns, quanta má fé, pretendem que a empresa seja uma família, chegam a propor isto, apesar do climão de estresse (fico me perguntando em que família estes caras foram criados). A ridícula ideia do cheeseburger em que a vaca está compromissada e o boi comprometido e é isto que se espera da pessoa, que ela doe a vida pela empresa.
Um bando de maus malucos. As grandes pressões, insistentes questionamentos geram mentiras, omissões, sabotagens, acidentes de trabalho, doenças ocupacionais e sei que os caras sabem disto, é óbvio.
Então fica no ar a questão de qual seria o medo destes caras em abordar pessoas com foco nas direções de resultados, valorizar acertos, reconhecer esforços, privilegiar conformidades, corrigir comportamentos, estimular crescimento, celebrar boas ideias e empenho, entender comprometimento como livre vontade de participar daquele meio social, gerar e fazer gerar clima bem humorado, amistoso, respeitoso, onde as pessoas possam ser manifestas, as iniciativas admiradas, o senso comum e as individualidades consideradas, as habilidades e dificuldades trazidas à tona com a mesma naturalidade, o permitir e compreender histórias de vida, entender por fim que cada um de nós é único e portanto diferente um do outro. Que é exatamente com heterogeneidade que se constrói harmonia, crescimento e resultados. Aí sim, seremos todos bem mais congruentes com toda esta evolução. Relações saudáveis para um mundo sadio, corporativo e existencial.

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